Estava sentada em frente ao portão, olhando a rua; apenas observando o movimento, era tão “interessante” para mim. Tão inovador quase magnífico. Uma das poucas vezes e essa era um delas em que eu me sentia livre e feliz; não por não estar com você. Mas sim por quase chegar perto a abrir as asas e sair. São tardes calmas em climas frios, que me dão inspiração; vêem-me a cabeça milhares de fotos, mas quando estou com a câmera em mãos. Nada funciona, ou tudo dá errado. Olhar as pessoas andando de carro, eu adorava observar-lás. Algumas pessoas andavam com carros luxuosos e caros, outras preferiam um carro mais modelo esportivo, pela ousadia. Outros, porém se contentavam com seus carros antigos ou normais. Eu notava que sempre que eu via uma mulher dirigindo a maioria das vezes ou parte delas; as mulheres eram jovens e bonitas. Elas davam a impressão de que a vida delas era perfeita. Ver os carros passando me dava vontade de levantar e sair andando até eu cansar; andar, andar e andar. Eu poderia fazer isso por horas é claro se eu tivesse um ponto a chegar, um ponto decidido. Um objetivo.
— Se eu fugisse; — Falei a mim mesma. — Eu iria a um lugar; qualquer um. Um lugar onde eu conseguisse ser o que eu quero.
Calei-me. Passei lá sentada, uma hora e meia a mais do que eu já estava, pensando; meus olhos pairavam sobre as ruas, os carros, as pessoas. Eu em mente me perguntava o que será que aconteceria se eu só fosse “embora” e não deixasse pistas e nem rastros. Levantei-me e fui à dentro de casa, procurar minha mãe;
— O que você faria se eu fugisse? — Perguntei a ela, enquanto eu a observava cortar a carne em cima da pia, com uma faca afiada.
Ela riu consigo mesma se virou para mim com um sorriso irônico;
— Você vai fugir? — Ela riu. — Eu ligaria para a policia e se eles não te trouxessem para casa. Eu não sei o que faria. — Ela parou por um momento para pensar. — Sinceramente... Não sei... — Ela parou de novo. — Não sei.
Estar para ali, vendo minha mãe pensando e quase chorando; deu-me algo no coração um aperto; uma dor muito forte. Mas a dor não era mental e sim física, comecei a sentir falta de ar, tudo ficava tão claro em mente. Tudo se apagava e ligava, escuro e luz essa seqüência ia se seguindo...
— Vou andar. — Eu disse.
— Aonde? — Perguntou alguém, eu pelo menos havia escutado alguém.
— Só andar.
Sai da cozinha, abri porta a fora e parei em frente do portão. Respirei fundo. Segui em frente; sai portão a fora e fui para a direita, andei, andei e andei. Eu não tinha andando muito, mas minha mente calculava milhões de passos. Eu só estava a uns dois quarterões de distância de casa.
— Dois quarterões, dois passos a liberdade. — Eu disse a mim mesma, atravessando a rua.
Veio-me então a lembrança de um pensamento. Onde eu pensava no que eu iria fazer se eu fugisse esse pensamento eu o pensava, todos os dias. Pensava e re-pensava.
— Se eu fugir vai ser como no País Das Maravilhas. — Eu disse olhando o céu. — Eu espero. — Eu falei meticulosa.
Andei. Até chegar ao estádio da cidade, que não ficava muito longe de casa. Os grandes portões estavam abertos, decidi entrar. Subi as grandes escadarias, arquibancadas — melhor dizendo —. Subi até o último degrau e de lá fiquei andando de um lado a outro, observando a cidade, olhando o grande estádio vazio, o estádio tomava quase o quarteirão inteiro e o quarteirão era gigante. Andei de um lado a outro, subi e desci degraus. Sentei-me, pensei. Já se passava um tempo e ainda era tarde, decidi voltar para casa... Quando cheguei tudo estava aberto, porta, janela. Tudo; Eu me perguntava por quê. O que será que tinha acontecido? O carro estava na garagem. Os vizinhos fecharam as portas, bom na verdade parecia que eles não estavam na verdade. Desesperei-me. Decidi voltar a o estádio, no caminho eu vi umas pessoas, mas elas nem me olhavam no rosto. Sentei-me no ultimo degrau da escadaria de novo, pensei, olhei um lado a outro. Já estava de noite, o céu não tinha estrelas. Tudo estava tão silencioso, parecia àqueles filmes de terror, aonde a vítima do monstro vai a um lugar onde está silencioso e de repente, tudo acontece; a vítima morre e o monstro vai à procura de outra vítima.
Eu estava sentada no último degrau, olhando o meio do campo de futebol. Decidi descer até o meio do campo. Lá estava eu; tinha grandes vontades de gritar, mas não tinha voz. As luzes brancas do estádio se acenderam me iluminando. Tudo começou a ficar branco e eu não conseguia respirar.
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